Estrelas O testemunho arrepiante de João Cancelo sobre a morte trágica da mãe, todo o calvário que se seguiu e como ele amparou a família
Antes de partir para os Estados Unidos da América, onde vai disputar o Mundial de Futebol 2026 ao serviço da Seleção Nacional, João Cancelo, de 32 anos de idade, concedeu uma entrevista para o programa ‘Alta Definição’ e abriu o coração da Daniel Oliveira sobre um dos dias mais duros da sua vida: o da morte da sua mãe, quando ele tinha apenas 18 anos.
O futebolista recordou o acidente de automóvel sofrido e a sua tentativa desesperada para salvar a mãe. "Foi um acidente. Fomos levar o meu pai ao aeroporto de Lisboa, ia para a Suíça. À vinda para cá, eu e o meu irmão íamos a dormir e só desperto quando o carro está na vala. A partir daí só ouvi a minha mãe a gritar e não me lembro de mais nada. Lembro-me de estar acordado e o acidente todo acontecer, lembro-me da minha mãe a gritar e depois houve um momento, quando o carro caiu, em que já não a ouvi mais", contou João Cancelo, revelando que acredita que foi o cansaço da mãe foi a causa do trágico acidente.
O testemunho do craque é arrepiante. "Lembro-me o meu irmão a chorar no banco de trás e eu consegui tirá-lo, ele tinha a cara toda arranhada. Eu parti a clavícula. Não me conseguia mexer, mas tive de ter a força para tirar o meu irmão porque ele estava em pânico, era muito novo", recordou João Cancelo, acreditando que a mãe pode ter adormecido ao volante. "O carro praticamente caiu todo em cima dela. Foi tudo num ápice, milésimos de segundo que mudaram a minha vida para sempre. Lembro-me de algumas coisas. Lembro-me do último grito da minha mãe... Lembro-me do meu irmão a chorar, ainda uma criança, com 8 anos. Tentei levantar o carro para tirar a minha mãe debaixo e não consegui... não consegui. Aquilo era tudo muito escuro, estávamos no mato, na A2, num penhasco. Tentei levantar o carro com a minha força máxima, mas não consegui, levantar um carro é completamente impossível", recordou, de lágrimas nos olhos.
Quando a tia lhe deu a notícia de que a mãe tinha falecido, João revoltou-se. "Dei um soco no vidro e fiquei com mão toda a carne viva, cheia de arranhões. Não conseguia parar de tremer, não conseguia parar de sentir raiva da vida. Mas o mais difícil foi dizer ao meu irmão de 8 anos que nunca mais ia ver a nossa mãe. Foi o mais difícil da minha vida. Consegui na altura que ele dormisse um pouco e quando o fui buscar disse-lhe: 'Pedro, a mãe já não está entre nós. Ela vai estar sempre connosco, mas fisicamente não vamos conseguir vê-la. Ela foi morar com os anjos'. Ele começou a chorar assim que lhe disse isso e abraçou-me e pediu-me para nunca o deixar", partilhou o internacional português, revelando que o pai ficou numa depressão profunda e que, naquele momento, queria acabar com a sua vida.
A tragédia abalou a família e ele tentou segurá-los a todos. "Não gosto de me fazer de coitadinho, mas foi de facto muito difícil. A minha mãe era o pilar da nossa família. Houve uma vida antes da minha mãe falecer e depois da minha mãe falecer. Completamente diferente, porque comecei a ver a vida de outra maneira. Tive que crescer muito rápido", explicou a Daniel Oliveira, acrescentando: "Depois de a minha mãe falecer tive de me tornar o líder da minha família. Tive de ser o sustento da minha família, tive de ser forte e desenrascar-me. São cicatrizes da vida, mas, graças a Deus, hoje consigo fazer bem aos que importam para mim".
A mulher, Daniela Machado, que já era sua namorada na altura, foi um dos seus maiores apoios e teve um papel muito importante neste momento de dor. João Cancelo pensou "muitas, muitas vezes" em desistir do futebol. "Nada fazia sentido para mim. Só pensava na mesma coisa", frisou. "Tentava não chorar à frente deles [pai e irmão]. Tentava não chorar para parecer o mais forte, o líder da família, porque tinha de o ser, mas de uma forma muito pouco madura, porque tinha 18 anos na altura. Mas tive de o fazer porque tinha pessoas que dependiam de mim", sublinhou, adiantando que o pai passou uma "fase muito complicada".
"Fui buscar forças onde não sabia que as tinha. Hoje em dia isso faz a minha mente blindada como é. Se já passei por tudo isto, não são pequenas coisas que me vão deitar abaixo”, explicou João Cancelo ao apresentador, confessando: “Na altura, às duas da manhã, saía disparado de casa a correr e ia à campa da minha mãe falar com ela. Saltava o muro do cemitério e ia falar com ela. Não conseguia dormir, começavam-me a cair as lágrimas, e ia falar com ela porque sentia necessidade. E voltava mais aliviado. Pode parecer estranho, coisas de maluco, mas sentia necessidade... A minha mãe para mim era tudo: era o meu pilar, a pessoa com quem eu desabafava, é a mulher da minha vida. A minha mulher que me perdoe, mas a mulher da minha vida é a minha mãe".
Ter pessoas que dependiam dele e a sua ambição ajudaram-no a erguer-se e a seguir em frente, mesmo chorando muitas vezes. Ainda assim, há um enorme vazio. "Hoje tenho dinheiro, sou bem-sucedido, tenho a minha família, tenho uma casa bonita, os carros que eu quero, mas falta-me sempre a minha mãe. Falta-me o meu pilar e a pessoa que mais merecia viver tudo o que eu estou a viver hoje. A vida tem estes dissabores, mas sinto que ela está orgulhosa daquilo em que me tornei e do que sempre fui para ela. Quase todos os dias lhe dizia que a amava e que ela era a pessoa mais importante da minha vida."
O craque sente falta do abraço, do cheiro e dos conselhos da mãe, e revelou ainda algo muito especial que ainda costuma fazer e que, garante, lhe traz paz. “Os desabafos que eu fazia com ela... Era a minha melhor amiga. Ainda hoje é. Sinto necessidade, sempre que venho a Portugal, de ir à campa dela e falar com ela, porque é algo que me sinto muito bem em fazer e sinto que também me dá sorte, tenho essa superstição”, revelou, sublinhando que a mãe sempre o incentivou a seguir os seus sonhos e a ser jogador de futebol.
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