Estrelas Sem telemóvel e computador, Vasco Pereira Coutinho viveu o ano mais feliz da sua vida num Seminário: como este período passou a dias de dor e discussão com Deus e o fez desistir de ser padre
Aos 38 anos de idade, Vasco Pereira Coutinho tornou-se num fenómeno das redes sociais. Sonhou cedo em ser ator, mas não passou nos testes do Conservatório e mudou de objetivos. Ainda estudou marketing, mas foi depois de se licenciar que embarcou naquela que foi uma das experiências mais marcantes da sua vida: voou para Itália, onde viveu durante dois anos num Seminário. “Tinha a consciência de que queria dar ao mundo o que tinha recebido e tinha recebido muito, sobretudo na amizade com o Padre João Seabra, que foi muito meu amigo, e houve uma altura em que disse que queria ser como ele, dar às pessoas aquilo que o Padre João me deu”, começa por contar no podcast ‘Debaixo da Língua’, da Rádio Comercial.
Assim, provocando um “enorme desgosto” à mãe, “que ficou muito aflita” vou para Roma. “Foi uma nervoseira total. Deixámos cá tudo, no primeiro ano não podíamos ter nem telemóvel nem computador”, prossegue. Ainda hoje se recorda de como se despediu da família. “Fui embora, deixei as chaves e entreguei as chaves e o telemóvel ao meu pai no aeroporto”, lembra. Seguia viagem com a ideia de que “não ia voltar” e a verdade é que, sem comunicações com o exterior – embora existisse o telefone do seminário “para falar uma vez por semana para as famílias” - viveu dias de profunda felicidade. “Foi o ano mais feliz da minha vida, talvez também por causa disso”, diz.
Uma das poucas coisas que o atordoavam era adormecer. “É um ano em que o meu pânico era não acordar, porque não tinha despertador do telemóvel. Arranjei um, pedi para me comprarem. Mas tinha medo de fazer as coisas erradas, chegar atrasado”, confidencia. Ao todo, eram 50 pessoas a conviver. “É incrível de giro, houve imenso tempo para fazer silêncio, para estar com amigos, para rezar, não houve distrações de telemóveis nem de computadores”, revela, tendo ainda hoje bem presente as conversas no jardim e dias muito felizes em que nunca se sentiu sozinho. “Não é nada solitário. Curiosamente foi o ano em que me senti mais acompanhado. É como teres 50 irmãos. Foi uma coisa normalíssima”, insiste.
"A ideia do sacerdócio se calhar afinal não era assim tão atraente para mim, assustava-me a ideia de ser alguém em quem as pessoas confiam, é uma responsabilidade muito grande"
Todavia, ao fim do primeiro ano, tudo “começou a tremer”. “Este ano acaba e percebo juntamente com os meus superiores que aquilo não é por ali, que não vou ser padre. Tem a ver com a vocação, com tu no presente, os superiores que estão a gerir as comunidades, têm muito essa perceção. A perceber se a pessoa está a florescer, ou está a ficar mais no tempo mais triste, mais fechada. E eu não estava a florescer”, desvenda. Esta perceção deveu-se a “várias coisas.” “A ideia do sacerdócio se calhar afinal não era assim tão atraente para mim, assustava-me a ideia de ser alguém em quem as pessoas confiam, é uma responsabilidade muito grande”, justifica.
Ainda assim, no segundo ano, conjugou os estudos de manhã com as tardes numa paróquia. Mas com rotinas muito diferentes do que se possa imaginar. “Vou para uma Paróquia, mas não fiz nada, não fui acólito, não dei catequese, não quero mexer em nada, não fiz o coro. Acho que não sei fazer e não quero, se puder não fazer, não faço”, desvenda. Nessa fase passava por um período “muito complicado.” “Estava muito depressivo, foi uma altura em que comecei a fazer psicoterapia. O que me ajudou nesse ano foi limpar o adro da igreja, os vidros da igreja e os caixotes do lixo. Foi o que fiz todos os dias”, adianta.
"Sei que aquele adro da igreja ouviu-me muito, falei imenso sozinho durante esse ano. Discuti imenso comigo, com as pessoas dentro de mim sozinho, discuti imenso com Deus, gritei muito"
Os dias tornaram-se mais cinzentos. “Não sei dizer de concreto o que aprendi sobre mim. Sei que aquele adro da igreja ouviu-me muito, falei imenso sozinho durante esse ano. Discuti imenso comigo, com as pessoas dentro de mim sozinho, discuti imenso com Deus, gritei muito”, prossegue. Até que encontrou a paz. E essa paz veio com a ideia de que, afinal, não iria ser padre. “Passou por perceber que o caminho não era por ali. Não foi sozinho, foi o meu superior que veio ter comigo e me disse que não era por ali. Chorei, chorei e depois fiquei em paz com isto”, frisa.
A verdade é que esta experiência mudou para sempre a sua vida e hoje faz parte de uma memória feliz do seu percurso.
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