Estrelas Trabalhou num hotel e fazia dinheiro a tocar no metro: as aventuras de Jorge Palma pela Europa antes da fama em Portugal
Antes de se tornar uma das principais figuras da música em Portugal, Jorge Palma viveu na Dinamarca e em França, ao longo da década de 1970. A primeira ida ao estrangeiro deveu-se ao intuito de fugir do serviço militar obrigatório, ainda antes da Revolução que pôs fim à ditadura em Portugal, quando estava nos seus 'vintes'.
"Fui para a Dinamarca, porque tinha trabalhado com um encenador dinamarquês. Tinha acabado de desistir do curso de Engenharia, naturalmente deixando, faltando às aulas. Sabia que ia ser chamado [para o serviço militar], e ele disse-me: 'Se precisares, tens uma casa em Copenhaga', e pronto, assentei na Dinamarca. Não muito tempo, porque entretanto deu-se o 25 de Abril", contou, no 'Alta Definição', em 2011, o músico que nos deixou nesta segunda-feira, 21 de setembro.
"Era suposto aprender dinamarquês, tornei-me amigo da minha professora de inglês, e do marido dela que era músico de jazz. A certa altura deixei de ir às aulas de dinamarquês, passava às noites em casa deles: ele no contrabaixo, eu no piano. Havia gente todo o lado e ao fim de seis meses estava a falar dinamarquês, o suficiente para ir trabalhar numa receção", explicou. Foi aí que começou a fazer dinheiro na capital dinamarquesa: "Arranjaram-me um emprego, fui parar ao Sheraton de Copenhaga, a fazer camas, limpar elevadores, aspirar o chão. Tinha de acordar às sete da manhã. Isso também só durou três ou quatro meses, porque entretanto dá-se o 25 de Abril."
Algum tempo mais tarde, e já depois de um período em Portugal, residiu em Paris, onde vivia entre tocar no metro e a vida social da Cidade Luz: "Quando ia para ficar uma semana para Paris com outros artistas portugueses, decidimos que não íamos tocar porque os bancos que financiavam nos baixaram o cachê. Em vez disso, fui para o metro, e aparecem dois malaios a perguntar se queria fazer dinheiro. Em meia hora, fizemos cada um 100 francos."
"Foi altura muito especial, apanhei uma época de ouro – em França e na Europa, de um modo geral. Os dias eram a tocar, no metro, nas esplanadas, quando estava bom tempo, percorria-se Paris. No inverno, era sobretudo o metro, em vez de tocar cinco horas podia tocar seis ou sete, mas era trabalho que não sentia como trabalho", descreve o cantor. "Fazia o suficiente para pagar o meu hotel com casa de banho privativa, as minhas ostras, os meus filmes e os meus concertos. (...) Da primeira vez, estive dois anos sem vontade de voltar, todos os dias tinha amigos novos e os mais antigos eram cada vez mais amigos", relatou, frisando: "Encontrávamo-nos sobretudo num café onde trocávamos as moedas por notas, gastávamos grande parte lá."
Nem tudo foi positivo, contudo, como relembrou, quando foi desafiado por Daniel Oliveira a lembrar-se de um momento: "Houve uma vez que me roubaram uma guitarra e um blusão. Era um bocado fora de horas, que era meia-noite. Fui atrás deles a dizer que precisava daquilo para trabalhar, um deles vira-se para trás e dá-me uma patada no peito. No dia seguinte, o tal 'monsieur George', deu-me não sei quantos francos porque sabia que eu pagava, isso marcou-me do ponto de vista negativo."
"Havia 'one night stands'. [Aconteciam] fruto da minha beleza (risos), a música ajudava bastante. Normalmente, eram as miúdas que nos procuravam... e ótimo", disse ao apresentador, entre risos. De referir que este tempo na Europa acabou por resultar no seu terceiro disco 'Qualquer Coisa Pá Música', que contém temas escritos em Copenhaga, Paris, Londres, Estugarda e Genebra. Já conhecido em certos círculos musicais, conseguiria atinigir a fama generalizada na década de 1980, com discos marcantes como 'O Lado Errado da Noite' (1985), 'Quarto Minguante' (1986), 'Bairro do Amor' (1989) e 'Só' (1991).
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