Estrelas A fuga à tropa, os vícios, os amores e o sonho que ficou por cumprir: a vida plena de Jorge Palma, um dos maiores artistas da sua geração
21 de setembro de 2026 foi o dia em que a música portuguesa perdeu uma das suas grandes figuras, Jorge Palma. Mais do que um músico, foi uma figura mítica para várias gerações, autor de temas que transgridem tempo e espaço, um artista que não teve de escolher entre fazer canções populares ou canções eruditas, porque, sem esforço, fazia ambas de uma vez.
Nasceu em 1950, na Penha de França, em Lisboa, de pais que estavam divorciados já na altura em que nasceu. Filho único, viveu uma infância "bonita", como a descreveu, em casa da mãe. Tocava piano, o instrumento com o qual ficaria associado no seu percurso, desde os primeiros anos de vida.
Foi viver com o pai aos 17 anos e, irreverente desde a juventude, conseguiu uma licença militar duas semanas antes do dia em que iria ingressar na tropa, sendo que partiu para fora do país, mais concretamente para a Dinamarca. É no país nórdico que se casa pela primeira vez, ainda durante o Estado Novo, depois de ter conseguido o estatuto de exilado para que a companheira pudesse permanecer em terras dinamarquesas.
Regressa após o 25 de Abril, escreve o seu primeiro álbum, 'Com Uma Viagem na Palma da Mão', mas em 1976 volta para o estrangeiro, numa altura que tem um confronto inicial com as drogas duras – "heroína, cocaína, morfina, mezcalina … as ‘inas’ todas. Experimentei tudo. ou quase tudo", contou ao 'Sol' – algo que o leva a contrair hepatite C, mas a morte de um amigo por overdose fê-lo reconsiderar. "Felizmente, durou só uns meses e precisava me libertar do grupo que consumia, pegar na guitarra e ir por aí", recordou, à 'Mensagem de Lisboa'.
Passou por Espanha e depois por França, onde ficou dois anos, numa época em que lançou o seu segundo disco. Em Paris, chegou a fazer dinheiro a tocar nas ruas. "Estava sempre a cruzar-me com músicos de todo o mundo, da Malásia, dos EUA, da Irlanda... arranjava-se sempre dinheiro. foi uma altura de ouro, propícia a fazer-se dinheiro a tocar e a cantar", explicou.
Em 1983, quando já havia regressado a Lisboa juntamente com a sua mulher, Graça Lami, é pai pela primeira vez, de Vicente. Foi nessa década que escreveu os álbuns que acabaram por defini-lo enquanto artista no imaginário comum, nomeadamente 'O Bairro do Amor'. Era uma época de ouro para a noite da capital e fez de alguns espaços noturnos da cidade a sua segunda casa, desde o Hot Clube ao Frágil, que acabou por dar nome a uma das suas mais conhecidas músicas.
Já na década de 1990, tornou-se pai pela segunda vez, em 1995, de Francisco. Em entrevistas, mostrava-se feliz pela boa relação com os filhos, ainda que o mais novo vivesse com a mãe. "Os meus filhos são muito meus amigos, não me culpam de nada, a não ser em fases em que tenho bebido demais e eles se preocupam", disse, ao 'Sol'. O primogénito, Vicente, chegou a integrar a sua banda. Aliás, Vicente e Francisco estavam consigo em '3 Palmas na Mão', o espetáculo que foi adiado no último ano por problemas de saúde, com base numa música em que os três participam, escrita por Jorge Palma em honra da sua prole.
É no final dessa década que o músico começou a namorar com a atriz Rita Tomé. "Chegámos a percorrer andaimes, colados, mas claro que não íamos do Castelo ao Rossio. Mas fazíamos essas maluquices, dançar na rua, beber uma cerveja já ao nascer do sol...", contou, ao 'Público', nostálgico pelo zénite da sua paixão.
Casar-se-iam em Las Vegas, durante uma viagem aos Estados Unidos organizada para festejar os 20 anos da produtora UAU, no ano de 2008. "Foi uma brincadeira. Já vivíamos como casados há uns dez anos. Estávamos num grupo (...) que incluía o Rui Veloso, o Manuel Moura dos Santos, o Fernando Alvim, o Rui Braga… não dissemos a ninguém. as alianças foram compradas na véspera e custaram uns cinco dólares. A música de entrada da noiva fui eu a cantar o ‘Encosta-te a Mim’, e os padrinhos foram o Elvis e a dona da capela", recordou, em declarações ao 'Sol'.
Em 2011, disse ser "alcoólico para a vida", vício que começou na adolescência, que acabou por prejudicar algumas das suas atuações, como o próprio reconheceu, e que, mais tarde na sua vida, o levou a consultar ajuda especializada: conseguiu ultrapassá-lo com a ajuda de uma estrutura do Estado, a Unidade de Alcoologia de Lisboa. O vício que não conseguiu largar foi o do tabaco, que, numa das últimas entrevistas em vida, afirmou temer que fosse acabar por "estragar" tudo.
Morre, aos 76 anos, fruto de paragem cardiorrespiratória. Não conseguiu cumprir o desejo de ser avô em vida, mas deixando um legado inolvidável e inapagável, assim como inúmeras canções que vão sobreviver na memória de todos.