Estrelas Beatriz Godinho saiu de Páginas da Vida após perder um bebé em circunstâncias dramáticas: a tragédia que a atriz nunca tinha contado e mudou a sua vida
Beatriz Godinho falou pela primeira vez, no 'Alta Definição', deste sábado, 18 de setembro, sobre o que a levou a abandonar a novela 'Páginas da Vida', da SIC, onde interpretava Constança. A atriz de 34 anos confessou que perdeu um bebé nesta altura da sua vida e acabou por ficar desamparada com o trauma, ela que já há muito admitia que a maternidade fazia parte dos seus objetivos.
"Já tive situações na vida em que podia ter justificação para deixar um projeto a meio, mas não arranjei maneira. Mas às vezes a vida troca-nos as voltas. E a vida trocou-me as voltas de uma forma que nunca tinha acontecido antes. Aos 34 anos, eu tinha uma ideia de onde iria estar e agora essa estrutura implodiu", começou por relatar.
"Foi muito desorganizador para mim proque as ferramentas que tinha nenhuma delas servia para lidar com esta situação", confessou, desvendando depois: "Descobri uma gravidez quando estava a fazer o projeto, que não estava planeada, mas era desejada. Como ja tinha tido uma perda gestacional, fui aconselhada pela minha ginecologista-obstetra, fui aconselhada a ficar de baixa. E foi uma situação que enquanto atriz, estou habituada a confiar no meu corpo. Não podia e tinha de proteger algo que era maior que eu."
"Era muito difícil, nem eu tinha passado por uma situação assim, nem a SP tinha passado por uma situação assim. Estávamos todos um pouco: 'O que vamos fazer aqui?' Quando estamos pressionados por tempo, será que tomamos as melhores decisões? Tenho a certeza que fizemos o que podíamos nas circunstâncias que nos foram apresentadas. E estou muito grata por ter sentido humanidade da vossa parte e foi um processo longo, porque infelizmente, eu acabei por perder essa gravidez", acrescentou.
Depois de revelar que aconteceu entre duas a três semanas depois de sair da novela, a atriz relatou, em lágrimas: "A parte difícil é que foi um aborto retido, tínhamos perdido o batimento cardíaco, mas a gravidez não se resolveu por ela própria, foi duro pelo meu corpo. Foi um processo que ainda se estende mais."
"Sinto que preciso de trabalhar porque me dá alento e direção, mas depois ao mesmo tempo, sinto que precisava de ser honesta comigo e assumir que estava completamente perdida. Sentia-me completamente estilhaçada, nunca tive de lidar com uma situação em que me sentisse tão impotente. Era mais justo para mim e para as pessoas à minha volta assumir, isto quebrou-me", sublinhou, acrescentando: "Nem sequer sei quem sou depois destas experiências todas e tive de dizer que não conseguia honrar o compromisso, e isso também é uma forma de honrar esse compromisso."
Beatriz Godinho conta que a gravidez a deixou muito feliz: "Claro que havia felicidade. Nunca fui aquela menina que sempre quis ser mãe, mas desde há muitos anos que se tornou evidente para mim. O meu companheiro na altura teve de fazer alguns tratamentos de fertilidade e quando aconteceu... já descobri muito tarde. Vês os dois tracinhos e já imaginaste por onde o miúdo vai para a escola, sabes? Houve momentos de uma felicidade que nunca tinha experienciado."
Apesar de ser uma pessoa "da ciência", a atriz não esconde que não conseguiu lidar com o que aconteceu: "Sei que uma em quatro gravidezes se perdem, o que não sabia era onde pôr esse amor todo que tinha lá, de uma maneira que não estava à espera. E onde se vai pôr esse amor todo quando se perde aquele bebé. Já estava muito perto do final do primeiro trimestre, que é sempre aquela altura difícil. Ficar de baixa acrescentou ansiedade e stress que era difícil de lidar. Ia todos os dias ver qual era a percentagem do risco de perda. 'Já está nos 15%, 5%,...'"
"Tive muitos sintomas durante três semanas, que foi quando comecei a perceber que havia alguma coisa que não estava normal. Eles começaram a desaparecer, começou-me a preocupar, falei com o ginecologista e fui com o meu companheiro na altura fazer uma ecografia. Infelizmente, o desenvolvimento do bebé tinha parado às nove semanas e três dias", frisou.
De seguida, afirmou: "O que é que és ou o que é que fica quando sentes que perdeste tudo? Infelizmente, a minha relação também não sobreviveu a esta crise e a pessoa fica num sítio em que não sabe por onde ir desde aí." Mais tarde, acrescentou: "Há um lado só que preferia que me tivessem dito o que aconteceu, porque há questões que podem afetar futuras gestações. Não era nada disso, isso dá algum alento, mas isso não resolve a pergunta de: 'Agora, o que é que faço com este amor todo?' (...) Eu não sinto que perdi um processo bioquímico, que é a gravidez, sinto que perdi um bebé."
Beatriz confessou: "Nestas stiuações, temos algumas opções para lidar com os abortos retidos. Lidar com um aborto espontâneo natural, esperar pela via medicamentosa e a via cirúrgica, quis esperar algum tempo, a espera é agoniante. Os sintomas continuavam a flutuar. A pessoa sabe que não está grávida, mas sente-se grávida. O problema é que a expulsão pode não ser completa e pode-se ter de voltar a repetir o processo. Isso demora tempo, o corpo fica muito débil, há questões de anemia, de debilidade física, que é muito difícil de lidar. Havia dias em que pensava: 'O que é que tenho de passar mais? Já não aguento, deixem-me descansar, deixem só que isto acabe.'"
"Nunca tinha percebido o quão vulnerável este caminho da maternidade é, e senti uma compaixão gigante por todas nós. E de repente só tinha esta sensação que queria abraçar todas as mulheres que tinham atravessado algo de semelhante", declarou.
Beatriz explicou: "Eu não queria ter de passar pela intervenção cirúrgica porque quero continuar muito a ser mãe, e há um risco diminuto de cicatrizes que podem prejudicar futuras gravidezes. Quis evitar ao máximo, claro que quando um tempo começa a passar, ainda há vestígios de gravidez dentro do seu útero, que podem causar infeções. Havia essa possibilidade cada vez mais próxima, mas como depois de cada tempestade vem a bonança, acabei por ter um pouco de sorte e um bocado de engenho, por saber como cuidar da minha saúde. (...) É algo pelo qual estou muito grata, e o futuro não é garantido, mas sinto que fiz tudo o que podia para convidar uma gravidez saudável a ter um futuro. Estou um bocado mais descansada assim."
Por fim, a atriz relatou: "Guardei tudo. Faz parte de mim, daquilo que eu sou. Há uma coisa que li, que as mães mantêm o ADN dos seus bebés, e isso acontece desde muito cedo. Guardei tudo, e guardo-os em mim. E vão acompanhar-me e fazer parte de mim, com o significado."