Estrelas Insegurança e apreensão: Sá Pinto ficou em choque com o que viu no Irão e foi obrigado a tomar duras medidas para se proteger do conflito
Ricardo Sá Pinto já se encontra em Portugal depois de ter abandonado o Irão, na sequência do fim do seu vínculo com o Esteghlal, clube iraniano que conduzia, pela segunda vez, desde junho de 2025.
Ao programa 'Essencial NOW', do NOW, o treinador de futebol deu o seu parecer sobre os mais recentes desenvolvimentos no país: "Estou apreensivo com tudo o que está a acontecer, mas com muita esperança, porque eu vivi algo que ninguém viveu, nomeadamente nós portugueses, quem não trabalhou e viveu lá, que foi muito mau: aquelas manifestações há um mês e meio foram realmente inacreditáveis."
"Mataram milhares e milhares de jovens entre os 20 e 30 anos, fala-se de 20 ou 25, mas não, estamos a falar de cerca de 50 mil. Tive acesso a imagens e a coisas que quem não está lá não viveu, porquê há um filtrar de informação, de vídeos, de imagens, depois cortaram a internet, cortaram todo o acesso e foi realmente difícil viver estes últimos meses", acrescentou, ele que referiu: "Até à manifestação, eu fui para lá no ambiente de guerra na altura, mas que acabou imediatamente, em junho. Depois, o Trump voltou atrás, foi no dia seguinte que acabou."
Sá Pinto desvendou, de seguida, como foi experienciar alguns dos últimos acontecimentos no Irão, nomeadamente as manifestações contra o regime, em janeiro, ele que, na altura, permaneceu, ao contrário do que ditavam os conselhos do Ministério dos Negócios Estrangeiros, para, alega, ficar ao lado dos seus jogadores: "Depois, houve umas manifestações em que morreram estas pessoas, todos iranianos, maioritariamente jovens, que foram para a rua manifestarem-se de uma forma pacífica. Isto tem um mês e três semanas e nós tínhamos a indicação de que a partir das seis, oito da noite não podíamos ir para a rua em determinados sítios. Eu vivia em Niavaran, que era um bocado mais longe do centro [de Teerão]."
Questionado pela jornalista Patrícia Matos sobre se este conflito, que envolveu ataques da autoria dos Estados Unidos e Israel, era previsível, o antigo internacional português não teve dúvidas: "Era uma questão de tempo e eu senti isso já algumas semanas para cá. Era uma questão de tempo e eu próprio já não me sentia confortável. A partir do que aconteceu, daquelas mortes, há aquele mês e meio atrás, eu já não me sentia muito motivado. Já não me sentia muito motivado e 100% envolvido neste projeto, apesar das coisas profissionalmente estarem a correr muito bem."
"Mas o ambiente era tenso, de desconfiança, não era saudável. As pessoas estavam tristes. A partir de uma certa altura, não me sentia seguro, porque sabia que ia acontecer e senti mesmo isso", relatou, contando: "Durante a noite as pessoas já não dormiam, estavam sempre à espera de um ataque, os meus adjuntos, parte da minha equipa técnica não voltou, ficou. Os meus jogadores estrangeiros foram, outros vieram, mas nunca vieram verdadeiramente. Houve aqui uma luta terrível contra este estado de espírito."
Em adição, o ex-treinador do Sporting admite que criou condições para terminar o seu vínculo com o Esteghlal: "A certa altura, não tinha 100% de condições para fazer o trabalho dentro daquilo que eu queria e forcei de alguma forma a saída também, porque enfim, não me sentia confortável de maneira nenhuma. As promessas eram muitas, deixaram de me pagar, só para ter uma ideia, o pão começou a custar nas últimas semanas cinco vezes mais, os ovos também, as pessoas tristes na rua, cada vez mais sozinhas, cada vez mais a pedir, cada vez mais pobreza, enfim..."
Por fim, deixa uma opinião sobre o sucedido: "Não tenho a mínima dúvida que a sociedade iraniana agradeceu, acho que todos nós agradecemos e achamos que nunca ia acontecer. É um país fantástico com a história que tem, um dos países mais antigos do mundo, é um povo inteligente, com uma oferta a nível cultural extraordinária, um país autónomo, com gás, minério, petróleo e uma costa lindíssima, como é Kish, por exemplo, que nos anos antes da Revolução [Islâmica, em 1979, com o início do regime vigente] ia ser lá o Dubai. É um país lindíssimo, tem tudo para se desenvolver e voltar a ser um país bonito que era nos anos 70."