Fora de Campo Vivia em casa da mãe e emigrou sem saber quanto ia ganhar: como uma decisão mudou a vida de Cláudio Braga, ídolo português do Hearts
O futebolista português Cláudio Braga é, hoje em dia, a grande estrela do Hearts, equipa escocesa, que defronta o Benfica na pré-eliminatória da Liga Europa, e fez furor durante a campanha extraordinária do emblema de Edimburgo na temporada passada, que ameaçou até ao fim da última jornada ser a primeira equipa fora dos dois gigantes de Glasgow a vencer o campeonato em 40 anos, numa história que foi acompanhada por todo o Velho Continente.
O jogador de 26 anos nascido em Mafamude, que celebra como Cristiano Ronaldo, é também um exemplo de uma história notável de um futebolista que teve de dar a volta pelo caminho mais difícil para chegar ao reconhecimento europeu.
Em 2022, Cláudio jogava no Vila Meã, do quarto escalão português e o salário não permitia sequer ter a sua própria casa. "Eu já estava a ganhar algum dinheiro, mas não conseguia viver daquilo, portanto vivia na casa da minha mãe. Não pedia dinheiro para nada e ajudava um bocado para ter o suficiente para viver e não precisar de ter um segundo emprego", contou ao 'The Herald'.
Foi aí que surgiu uma proposta que significaria uma mudança de vida muito arriscada, mas que acabou por mudar a sua vida: um convite para uma captação no Moss, da terceira liga norueguesa. "Porque é que eu iria da quarta de Portugal para a terceira da Noruega? O salário é o mesmo. A minha família está cá, a minha namorada também. A comida era incrivelmente cara. Tudo era negativo", pensou inicialmente, como confessou à publicação 'Josimar'.
Ao 'The Herald' continuou: "Demorou seis meses para eu aceitar o convite. E nem era uma proposta, era só um teste. Eu sei que me iam oferecer um contrato, mas não sei quanto é que ia ganhar, se ia ter uma casa, coisas assim", frisou, adendando: "Se não desse certo, voltava para Portugal para uma equipa da terceira ou quarta decisão e decidi correr esse risco."
Cláudio teve ainda alguma ajuda da família nesta decisão. "Foi difícil deixar a minha família, claro, mas foi por causa deles, de certa forma, que o fiz. Eles sempre me apoiaram e sabiam que eu tinha de ir." Na verdade, o amor pelo futebol nasceu desde cedo e por culpa do pai que o levava a jogar futebol enquanto criança e que chegou a ser o seu treinador numa "equipa de bairro", como relatou.
Ainda assim, disse ao jornal 'A Bola': "Nos primeiros tempos, andei a bolachas Maria [risos], porque era o mais barato que havia, e o clube não dava refeições." O seu salário no Moss rondava os 800 euros mensais, de acordo com o 'Público', e não lhe permitia jantar fora, mas em breve tudo isso iria ser um problema do passado.
Uma escolha da qual decerto não se arrependerá. Foi um sucesso no Moss, conquistou os adeptos e até treinou equipas femininas do clube vizinho Rapid Athene após os treinos. De seguida, conseguiu uma transferência para o Aalesund, clube norueguês que jogava a segunda liga, mas que tem histórico de primeira, e voltou a destacar-se.
Aí, chamou a atenção do Hearts, da Escócia, que o descortinou fruto de uma estratégia baseada num algoritmo de estatísticas quase ao estilo do filme 'Moneyball'. "Eles sabiam literalmente tudo, tinham entrevistas que eu tinha dado quando estava no Sp. Ideal, falaram com pessoas. Se não fosse este programa, nunca tinha vindo para aqui", confessou, numa outra entrevista, ao 'Público'.
Em Edimburgo, rapidamente teve direito a um cântico, baseado na canção 'Radio Gaga', dos Queen, que também acabou por se tornar viral. Quando regressou a Portugal, já com a sua nova fama e vindo de ter sido eleito o jogador do ano da Liga Escocesa, campeonato de alguma tradição no contexto europeu, percebeu que esta febre contagiara também os seus familiares.
"Fizemos um barbecue. Eu não bebo, mas houve pessoas da minha família que beberam umas cervejas e de repente estão a cantar a música que os fãs criaram para mim. Eles não sabiam bem a letra, porque não há muita gente em Portugal que fale inglês, mas deram o seu melhor. Foi muito engraçado", frisou, ao 'The Herald'.
Hearts away at St Mirren last night with potentially the chant of the season.
— The Away Fans (@theawayfans) October 30, 2025
“All we need is, Claudio Braga…” ??????
Love it! ?? pic.twitter.com/Xx264Sgw0i
É hoje um ídolo para o clube de Tynecastle e tem agora a oportunidade de defrontar um dos grandes do futebol português. "Só o facto de estar a jogar contra o Benfica neste palco, numa competição europeia, é algo especial", salientou, na conferência de imprensa pré-jogo, ele que irá contar com muito apoio vindo de Gaia. "Vai ser mesmo uma invasão, não vou mentir. Claro que, comparado contra os 60 mil benfiquistas, vai parecer pouco, mas vai muita gente para fazer frente. Alguns são benfiquistas, mas vão, claramente, apoiar o Hearts", disse, a 'A Bola'.