Estrelas O que ninguém sabia! Clara Pinto Correia sofreu um AVC no final do verão. Revelada a última crónica em que conta tudo, no dia da sua morte
Antes de morrer, Clara Pinto Correia, de 65 anos de idade, deixou duas das suas maiores revelações escritas. A primeira, uma história que nunca havia contado, de que foi vítima de uma horrenda violação, no Natal de 2020, e que fez questão de partilhar com os leitores - no dia 25 de novembro - na sua crónica, no Página Um, jornal digital onde era colunista com 'A Deriva dos Continentes'. A bióloga mostrou-se feliz pela aprovação por parte do parlamento português dos crimes de violação como crimes públicos.
A última seria (pode lê-la na íntegra aqui) publicada exatamente no dia da sua morte, dia 9 de dezembro. E nela trazia mais uma revelação. A bióloga sofreu um AVC no final do verão. "Estou em Estremoz há cinco anos, e nunca fiz férias. Acima de tudo, tinha um desespero de me atirar mar adentro e me deixar ficar lá durante imenso, imenso tempo, para depois me oferecer ao sol da praia como um lagarto, os dedos enfiados na areia e o pensamento inebriado de sal e iodo. Desta vez é que foi a grande desforra: duas grandes amigas, uma com casa no Burgau e outra na Meia-Praia, convidaram-me ao mesmo tempo. Aquilo, assim, dava para tirar mais de uma semana inteira. Que maravilha", começa por contar.
Parecia o cenário perfeito, não fosse esse destruído pelo problema de saúde. "Ou seja, teria dado, e teria sido uma maravilha, se não fosse o AVC. Assim, foram três dias de praia e cinco dias de hospital", lê-se.
Clara Pinto Correia revela que teve "o AVC mesmo em frente da minha aminha da Meia-Praia" e que foi esta quem a levou de imediado para Lagos, onde acabou por ser transferida para Portimão. A escritora afirma que demorou "dois dias para recomeçar a falar e conseguir andar". Depois disso tudo parecia calmo e a recuperação sem grandes dificuldades.
"Depois há sequelas. E, quando nos dão alta, também não nos dizem nada a esse respeito"
Mas os meses que se seguiram não foram fáceis. "Depois há as sequelas. E, quando nos dão alta, também não nos dizem nada a esse respeito. Mas devia ser obrigatório dizerem, porque nós não nascemos ensinados." Clara Pinto Correia explica que começou a demorar muito mais tempo a escrever, porque se cansava, e que até começou a enviar os seus textos para as irmãs para ter a certeza que nada seguia para o diretor impecável.
A escritora termina com um apelo. "Continuo a achar imperdoável que nunca se faça uma única campanha de esclarecimento, a nível nacional, sobre um problema que afecta tanta gente. (...) Quero é que a vida dos portugueses não acabe cedo demais porque nunca ninguém os ensinou a reconhecer o temível sinal de alarme que, de repente, se acende no meio de um nevoeiro cerrado."