Estrelas Pendurou as chuteiras aos 24, desistiu de um curso, acabou outro e ainda deu aulas: a curiosa história de José Mourinho antes de se tornar um dos melhores treinadores de sempre
José Mourinho celebra, nesta segunda-feira, 26 de janeiro, o seu 63.º aniversário, estando a caminho das três décadas de uma carreira começada em 2000 no Benfica, clube ao qual regressou na presente temporada. Ao contrário da grande parte dos seus pares, o 'Special One' tem consigo a particularidade de não ter passado por uma carreira típica de futebolista. Aliás, decidiu mesmo, ainda jovem, que o seu lugar não era com a bola nos pés, mas sim, no campo de treinos e nos bancos.
Filho de um mítico guarda-redes da liga portuguesa, Félix Mourinho, que também acabou por se tornar técnico, o futebol já lhe corria no sangue. Foi precisamente o progenitor que o levou consigo para Rio Ave e Belenenses nos primeiros anos de sénior: ao serviço do emblema da Cruz de Cristo, chegou a assinalar um hat-trick naquela que é uma vitória histórica, sendo a segunda mais volumosa de sempre da Taça de Portugal, um 17-0 dos "azuis" ao Vila Franca. Depois do clube do Restelo, ainda passou pelo GD Sesimbra e pelo Comércio e Indústria, antes de pendurar as chuteiras. Tinha, à época, 24 anos de idade. Mas, afinal, o que levou José Mourinho a abdicar deste percurso nos relvados?
A explicação foi dada pelo próprio, quando corria o ano de 2003 e havia acabado de ganhar a Taça UEFA pelo FC Porto, uma das primeiras grandes conquistas da sua ilustre carreira. "Como qualquer miúdo, cresci a adorar jogar. Não posso dizer que não era um miúdo com talento. No meu grupo de amigos, era dos mais talentosos. Mas a via académica exigia-me responsabilidades, tive que fazer as minhas escolhas. Senti que não valia a pena arriscar porque as possibilidades de sucesso não eram grandes", contou, à revista 'Selecções', do 'Reader's Digest'.
Depois, José Mourinho explicou: "Sabia das minhas limitações e das minhas qualidades. O meu skill não era melhor do que o skill dos outros. As minhas qualidades físicas não eram de exceção; não era rápido, e a velocidade é fundamental para o futebol de alto nível. Aquilo que me fazia melhor do que os outros era a minha capacidade de ler, analisar equipas. A visão que tinha da situação. Eu conseguia ver coisas que os outros não conseguiam, inclusive adultos."
O futebol já havia sido um entrave na sua formação académica. A mãe, Maria Júlia, relatou, ao 'Mais Futebol', em 2003, que uma discussão com a professora de Matemática, quando tinha 17 anos, que redundou na sua ausência das restantes aulas da disciplina fez com que não pudesse entrar no Instituto Superior de Educação Física. Ainda assim, a mãe insistiu e inscreveu-o em Gestão, mas o que o futuro Special One viu nesse curso não o aprouve.
"O Zé fez-me a vontade. No primeiro dia foi às aulas, entrou e quando chegou a casa disse-me com aquele ar que ainda hoje mantém: 'Mãe, desculpe, mas aquilo não é para mim. Estão todos de fatinho, de gravata e de muitas canetas. Aquilo não é para mim que só gosto de fatos de treino e de ténis.' Desistiu logo no primeiro dia", contou.
Esteve um ano a ajudar o pai em Vila do Conde e depois entrou mesmo no ISEF, como era seu desiderato, e o seu rendimento era impressionante, segundo o progenitor – falecido em 2017, aos 79 anos – em declarações ao mesmo artigo: "Fez o curso de cinco anos com notas muito boas. Era a vontade de acabar com a opção futebol para começar a trabalhar."
O próprio Mourinho, à 'Selecções', referira a importância que tinha para si a formação: "Sempre existiu em mim a ambição de me licenciar, independentemente da minha vocação. Talvez influenciado pela minha família: 'Não sabes qual vai ser o teu futuro no futebol, pelo menos constrói algo sólido'. (...) Se eu tivesse sido mal sucedido nesta minha aposta, como treinador, na pior das hipóteses era professor de educação física."
Isto porque, pelo meio, enquanto estudava, foi professor de Educação Física em diversas escolas. Em 2023, um antigo aluno, Arménio Anjos, descreveu ao 'The Sun' como era esta experiência de ser pupilo de um futuro treinador de elite: "Pensamos sempre que Educação Física é uma disciplina onde não precisamos de trabalhar arduamente, que é só correr e dar pontapés na bola. Com Mourinho não era assim. Ele dizia: 'Fui para a universidade assim como as vossas professoras de inglês e matemática. Têm de me respeitar da mesma forma. Têm de aprender comigo, não estou aqui para perder tempo'. Ficámos todos chocados."
Ainda nesta altura, treinara as equipas de formação do Vitória FC, clube que, sempre que pode, ainda vai apoiar ao Estádio do Bonfim, e depois foi adjunto no Estrela da Amadora e 'scout' na Ovarense. A sua grande oportunidade surgiu quando Bobby Robson foi escolhido por Sousa Cintra como treinador do Sporting: o inglês necessitava de um tradutor que conhecesse bem o desporto e o currículo do Special One acabou por se valer.
"Ele apresentou-se no aeroporto. Disse: 'Olá, mister. O meu nome é José Mourinho e o presidente contratou-me como seu intérprete. Espero poder fazer um bom trabalho para si, mister. Ele sempre me chamou 'mister', o José era muito simpático e respeitoso. Ele tinha um caráter forte, mas ele desenvolveu uma relação positiva com todos. Os jogadores gostavam muito dele", recordou Bobby Robson, numa entrevista ao 'The Guardian', em 2005, quatro anos antes da sua morte.
Ainda assim, o próprio José Mourinho recusa que tenha assumido a função de tradutor. "Limitava-me a ajudar o meu chefe a comunicar com os jogadores e com a Imprensa. Não me chamem tradutor porque seria uma ofensa a quem exerce essa profissão", disse, em 2015, à 'Sports Illustrated'. Stoichkov, um dos craques do Barcelona, para onde a dupla Robson-Mourinho se mudaria depois da passagem por Alvalade e pelo FC Porto, confirmou, numa biografia de Mourinho: "Alguém inventou que era tradutor, mas isso foi engano. Ele trabalhou no campo e sabia tudo. Foi nosso treinador e é um grande amigo!"
Foi na Catalunha que Mourinho prosseguiu carreira já sem Robson, quando este se mudara para os Países Baixos. Em 2000, ano em que acabou o seu o curso de treinador UEFA, na Escócia, aceitou o seu primeiro convite enquanto treinador principal, pronto para comandar o Benfica, que tinha acabado de despedir Jupp Heynckes. Uma aventura que durou pouco, mas onde demonstrou logo as características que o levariam a fazer história mais tarde no FC Porto, no Chelsea, no Inter, no Real Madrid, no Manchester United e na Roma, selando o seu lugar na história do futebol como um dos melhores técnicos de sempre, fruto do seu impressionante palmarés com duas Ligas dos Campeões, duas Ligas Europa, uma Liga Conferência, oito campeonatos nacionais, quatro taças nacionais, quatro taças da liga e cinco supertaças.