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Fernando Mamede, figura do atletismo nacional, em competição

Estrelas Depressão tirou sorriso a Fernando Mamede nos últimos anos de vida ao ponto de nem sequer sair de casa: o impressionante relato do histórico atleta sobre a saúde mental

27 de Janeiro de 2026 às 23:35
Questões de saúde mental marcaram a vida de um dos maiores nomes da história do desporto português

O dia 27 de janeiro de 2026 ficará para a memória como um dos mais tristes dias do desporto português, com a morte de Fernando Mamede, aos 74 anos de idade, desaparecendo assim um ícone do atletismo que fez vibrar uma geração.

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O antigo fundista do Sporting, clube que representou durante todo o seu percurso desportivo, foi recordista dos 10.000 metros durante cinco anos e faltou-lhe só a medalha olímpica que escapou em três ocasiões – considerou a última das quais em Los Angeles, em 1984, como o dia mais triste da sua vida – nada que o impedisse de se posicionar para sempre como um dos maiores nomes do desporto nacional.

Apesar de todo este sucesso e do respeito que granjeou perante os portugueses, para além de ter tido sempre o apoio da mulher, Alzira, e da filha, Patrícia, Fernando Mamede sofreu durante quase toda a vida com a saúde mental. Sem as condições de hoje, o atleta não tinha apoio de psicólogos no auge da sua carreira, situação que chegou a lamentar e à qual atribuiu a incapacidade de conseguir resultados ainda mais notáveis.

"Ninguém falava de psicologia do desporto. Quando se falava em psicólogos era porque o gajo era maluquinho, era estúpido. Os que procuravam ajuda eram diminuídos pelos colegas", relatou, ao 'Público', em 2019, ele que admitira que a pressão para ter sucesso acabava por ter consequências no seu desempenho, como no caso supramencionado da desistência nos Jogos Olímpicos em solo norte-americano.

Mas as crises não se ficaram pela sua carreira e acabaram por persegui-lo durante os últimos tempos de vida, afetando também a sua companheira de vida, como o próprio referira. Em 2012, entrou em depressão, e, quando a ultrapassou, quatro anos depois, confessou, à 'Tribuna Expresso', não saber o que a espoletou. "Não houve grandes problemas familiares, não há problemas de dinheiros. Não sei. (...) Sempre pensei que este tipo de problemas só tinha no desporto, mas que na vida pessoal era forte", revelou.

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"Comecei a não querer sair de casa, a não fazer caminhadas. Ficava em casa o dia inteiro a ver televisão. É nessa altura que a minha mulher também entra em depressão. Também deixou de sair, deixou até de fazer comida de tacho, quem fazia a comida era eu e era toda grelhada. Comíamos quase sempre o mesmo. Só saiamos para ir ao supermercado. Ninguém conseguia fazer nada de mim", acrescentou.

Na altura, sentia-se feliz, porém, em 2023, Jorge Vieira, então presidente da Federação Portuguesa de Atletismo, confidenciou que Mamede havia tido uma recaída, já depois de um tempo em que conseguira recuperar as suas rotinas: "Infelizmente, já está nesta situação há muitos anos. Não é de agora. É o estado de saúde dele, como infelizmente muita gente tem. É um estado já de alguma cronicidade que nos preocupa, pois fica muito tempo incontactável."

Nesse ano, na sua crónica 'O Postal do Dia', o jornalista Luís Osório homenegeou Fernando Mamede, relatando o seu quotidiano à época, com uma pungente mensagem. "Fernando Mamede está em casa. Raramente sai, raramente tem a força suficiente para encarar os vizinhos, a sua rua, a cidade, o país. Está profundamente convencido de que apenas o recordamos pelos fracassos", assinalou, antes de acrescentar: "Fernando está com a sua companheira de sempre. Que o amparou em todos estes anos, que o abraçou sempre que ele precisava de um abraço, que foi corajosa a enfrentar os cabos que a vida lhes foi colocando à frente. Mas também ela já não consegue. Foram tantos impactos (...) que, desta vez, também ela não está a conseguir."

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